CPB mais | Passagens bíblicas controversas (2023)

ComentáriodaLiçãoda EscolaSabatina– 4º Trimestrede 2022

Tema Geral: Vida, morte e eternidade

Lição 9 – 19 a 26 de novembro de 2022

Passagens bíblicas controversas

Autor: Sérgio H. S. Monteiro

Editoração: André Oliveira Santos: andre.oliveira@cpb.com.br

Revisora: Rosemara Santos

Nesta semana voltamos nossa atenção a textos comumente utilizados nos meios cristãos como prova de uma suposta imortalidade da alma e existência de um estado consciente após a morte.

O primeiro texto, como não poderia deixar de ser, é a famosa parábola do Rico e Lázaro em Lucas 16, com sua descrição do diálogo entre o homem rico, abastado, mas condenado ao inferno e o pobre Lázaro, cujos sofrimentos na Terra são compensados em uma nova vida no “seio de Abraão”. Toma-se esse texto como indicativo de elementos reais, narrado com o objetivo de descrever o estado dos mortos. Supostamente, essa parábola estaria em conformidade com a cosmovisão judaica existente naquele tempo, sendo facilmente compreensível para os que escutavam Jesus. Não obstante, uma reavaliação da evidência contextual judaica, analisando suas crenças, conforme os textos que nos restaram, anteriores ao ano 70 d.C., pareceria indicar outra direção.

Primeiro, um alerta: não é objetivo desse comentarista contradizer os comentários da lição do professor, feito pelo Dr. Jiri Moskala, mas apresentar uma interpretação alternativa, reforçando que não importa o ângulo da visão, se deixamos de lado pressuposições, vamos chegar à mesma conclusão: nenhum texto dá suporte ou base para a doutrina satânica da imortalidade. Em segundo lugar, não temos espaço para fazer uma análise completa e profunda do texto, nem é esse o objetivo deste comentário, mas queremos apontar direções. Para os que estejam interessados, em meu canal do YouTube, disponibilizei um vídeo tratando em detalhes dessa parábola (https://www.youtube.com/watch?v=FzPSj1A3a-E), além de alguns debates no programa Vejam Só. Isso posto, vamos dar algumas pinceladas numa forma alternativa de entender a parábola.

É lugar comum nos estudos de Lucas afirmar que os ouvintes de Jesus acreditavam na imortalidade da alma. Não é impossível que muitos dos que ali estavam mantivessem esse pensamento, mas estavam longe de ser a maioria, ou todos, e muito menos de representar o pensamento oficial dos que ouviam. Jesus estava falando com os fariseus, como se depreende do início do capítulo 15, que estabelece o contexto discursivo de Jesus: um diálogo com os fariseus sobre sua insatisfação com o modo pelo qual Jesus lidava com pecadores e cobradores de impostos. Ora, estudos recentes sobre a crença farisaica, como os de Jacob Neusner, mostram que não existe evidência alguma de crença imortalista entre os fariseus. À página 311 de seu livro In Quest of Historical Pharisees, Neusner afirma que, nos documentos anteriores ao ano 70 d.C. “não encontramos nenhuma referência à imperecibilidade das almas e, muito menos, a uma transmigração”. Nesse mesmo diapasão, Kaufmman Khoeler, escreveu na Jewish Encyclopaedia de 1906, sobre a imortalidade da alma, que “a única certeza que temos é que a crença farisaica na ressurreição não possuía sequer um nome para imortalidade alma” (https://www.jewishencyclopedia.com/articles/8092-immortality-of-the-soul).

Além disso, a expressão “seio de Abraão”, encontrada em Lucas 16:22, não aparece em nenhum texto judaico, antes do terceiro século depois de Cristo, no tratado Kiddushin 72b. Apenas uma fortuita referência anterior a que os mortos seriam recebidos por Abraão, Isaque e Jacó, no livro de 4 Macabeus, é geralmente apresentada como prova de uma crença anterior, mas o texto sequer utiliza a mesma expressão. Logo, não é possível afirmar que o seio de Abraão indique uma crença estabelecida no estado intermediário.

Mas, então, qual é o significado da parábola e o que os judeus daqueles tempos, principalmente os fariseus entenderam dela? Se considerarmos o contexto narrativo e marcadores especiais utilizados por Jesus, o significado é mais facilmente percebido. Os fariseus, no início da perícope, no capítulo 15, criticaram Jesus por Sua disposição de estar com os pecadores, incluindo os gentios. Jesus, então, conta uma série de parábolas falando do contraste entre o perdido e o achado, e entre a tristeza do primeiro e a alegria do segundo. Com isso, o Mestre buscava chamar a atenção dos ouvintes para a completa falta de sentido das críticas dos fariseus, uma vez que eles deveriam estar felizes com a pregação da aliança por Jesus.

No fim do capítulo 15, Jesus conta a parábola do filho pródigo, cujo cerne é, de fato, a tristeza do filho mais velho, representando os judeus. Esses, os judeus, no capítulo 16 são representados pelo administrador infiel, que possui as riquezas de ser o povo escolhido, mas não as utiliza para beneficiar os pobres deste mundo, ou seja, retêm as bênçãos outorgadas a eles para abençoar as nações, de acordo com a promessa de Deus a Abraão, registrada em Gênesis 12:3: “Em ti serão benditos todos povos da Terra”. Utilizando agora a figura de Abraão, Jesus descreve como os judeus, enriquecidos e celebrando as bênçãos da aliança, mas fechados em si mesmos, haviam se esquecido de apresentar as bênçãos da aliança aos povos e nações estrangeiras, representadas pelo pobre Lázaro, que é a forma grega do nome hebraico Eleazar ou Eliezer, que aparece nas Escrituras em Gênesis 15, como o servo damasceno que Abraão apresenta a Deus como seu descendente e herdeiro, antes do nascimento de Isaque. O quadro é claro: os judeus, ricos e abastados com as bênçãos divinas, se esqueceram de abençoar as nações e, por isso, o seu lugar de proximidade com Abraão seria passado àquele estrangeiro. Esse é o real sentido da parábola, utilizando elementos conhecidos do povo judeu, como Abraão e Eleazar/Lázaro, para denunciar a hipocrisia dos fariseus.

O próximo texto controverso é Lucas 23:43, no qual Jesus teria prometido que o ladrão estaria com Ele no paraíso, no mesmo dia em que o Senhor morreu. A discussão inteira é onde a vírgula deveria ser colocada: antes do hoje, lendo “hoje estarás”, ou depois do hoje, lendo “hoje, estarás”. Os antigos manuscritos não possuíam vírgulas e o grego aqui permitiria ambas as leituras. Jesus utilizou a construção “Em verdade digo” 75 vezes, sendo que em 31 delas, Ele duplicou o termo amen, um hebraísmo traduzido por “em verdade”. Ou seja, essa expressão era uma fórmula fixa de início de discurso de Jesus, sempre na mesma ordem no grego: amen + + lego + pronome. Essa ordem não ocorre apenas em Lucas 23:43, que está literalmente amen + pronome + lego. Essa construção incomum, certamente serve ao propósito de desfazer a ambiguidade gramatical e indicar que o “hoje”, no grego semeron, deve ser ligado ao verbo lego, digo, e não ao verbo estará, que ocorre depois da preposição met’emou comigo. Traduzido literalmente, Jesus disse: “Em verdade a ti digo hoje Comigo estarás no paraíso”. Jesus teria propositalmente aproximado o advérbio semeron do verbo que ele deveria modificar: lego.

Filipenses 1:21 a 23 também não precisa ser forçado ao ponto de dizer que Paulo esperava estar com Cristo logo após sua morte. Na verdade, o contexto nos esclarece que Paulo estava em angústia quanto a viver e seguir pregando Cristo, mesmo sendo perseguido, ou morrer e repousar das perseguições que sofria. Nessa posição de angústia diante da pressão, ele queria algo muito melhor: partir e estar com Cristo, por meio da ressurreição, como era a sua esperança farisaica.

As almas debaixo do altar de Apocalipse 6:9 tampouco dão qualquer ideia de imortalidade. O texto é totalmente simbólico, evocando a ideia de sacrifícios, cujo sangue era derramado na base do altar, como em Levítico 4, bem como de clamor por justiça, como é representado pelo sangue de Abel, em Gênesis 4.

Ao estudar a Palavra de Deus precisamos levar em conta muitas variáveis. A primeira delas, como já afirmamos em várias lições, é considerar sempre o testemunho total das Escrituras. Dessa forma, ao analisar os textos elencados no guia, precisamos considerar que nenhuma evidência existe na antropologia bíblica de uma divisão do ser humano em partes diferentes, sendo uma material e mortal e outra espiritual e eterna; ao contrário, a Bíblia repetidamente nos dá testemunho que o ser humano é uma unidade indivisível, que não sobrevive à morte, mas que pode ser trazido de volta à vida, arrancado do poder da morte, pelo poder Daquele que ressuscitou pelo Seu próprio poder: Jesus!

Conheça o autor dos comentários para este trimestre: O Pr. Sérgio Monteiro é casado com Olga Bouchard de Monteiro. É pai de Natassjia Bouchard Monteiro e Marcos Bouchard Monteiro. É Bacharel em Teologia, Mestre em Teologia Bíblica, cursa doutorado em Bíblia Hebraica pela Theologische Universiteit Apeldoorn. Pastor da Brazilian Adventist Community Church na Associação do Norte da Nova Zelândia e membro da Adventist Theological Society, InternationalOrganization for the Study of the Old Testament, Society for Biblical Literature e Associação dos Biblistas Brasileiros.

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Author: Fr. Dewey Fisher

Last Updated: 08/25/2022

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